A volta de quem não foi

Voltamos! Na verdade, não fomos a lugar nenhum e, após promessas e promessas, cá estamos de volta sem fazer nada de novo. Vícios em outras drogas meio que distanciaram a equipe que fazia o Drops, contudo, à medida do possível, apresentar-lhes-ei novidades. A embalagem desta farmácia de drogas culturais deve mudar, mas desta vez não vou me comprometer.

E nessa onda de voltas, todo mundo já sabe (mas ainda que repetitivo, o assunto é legal pra caralho), drogas velhas estão na moda. Drogas com mais de 20 anos, que movimentam a cena cultural de diversos pontos do planeta e que transformaram uma festa aqui em Brasília em tradição: a festa A Volta aos Anos 80.

Muita gente fez uma série de recomendações contrárias, e parte delas nós confirmamos. Um exemplo: estacionar foi um suplício, embora não haja na cidade lugar melhor para se realizar um evento nesta proporção (não confirmamos ainda quantas pessoas foram – sorry, Brasília em feriado de aniversário da cidade é impossível conseguir falar com alguém).

E falaram da trasheira comum a eventos do naipe. Então fomos, espírito, mente e coração preparados para Paquitas Decadentes, Sérgio Mallandro e Silvinho Blau Blau como as atrações surpresas. E qual não foi a excepcional surpresa ao entrar no palco Kid Vinil (com o tic-tic nervoso da ex-banda dele, a Magazine) e Nasi. Caralho, o Nasi!

O ex-vocalista da banda que deixou um rombo no rock nacional ao acabar, no fim de 2007, estava lá, declarando que podia ter muitas garotas, mas que você é diferente (você me ligou naquela tarde vaziaaa), #pqp. Para brindar a nós, que moramos neste quadradinho no meio de Goiás, aniversariante hoje, o que ele faz?

- Desde o fim do Ira! eu não tenho cantando várias músicas que me pedem. Mas é o aniversário da cidade… Vou fazer um agrado. – e tome “Envelheço na cidade”.

Acompanhados da Capital Urbana (uma banda daqui, que bem poderia chamar-se Legião Inicial, que tal?), Nasi e Vinil transformaram a festa em show. E tome Paralamas, Titãs, Ultraje, Plebe, Ira!, Barão, Cazuza, Legião… Sem-sacional, enfim!

As drogas de hoje são boas. Nada como se “entorpecer bebendo vinho” ao som de entorpecentes nacionais da década de 80 – este flerte é um flerte fatal.

*Antes que nos chamem de ingratos: parabéns Brasólia! (quem estiver por aqui e ler isso: Sorriso Maroto é droga pesada, portanto, passe bem longe da Esplanada hoje).

Anúncio oficial de mudança

A última postagem aqui já faz algum tempo,  né? Muita mudança neste último semestre. Casei de novo, a ficha ainda não caiu direito de que vou ser pai, estou de mudança de endereço, de setor na empresa em que trabalho… Um verdadeiro turbilhão que me afastou (parcialmente) do cenário cultural brasiliense por todo esse tempo. Tempo? Fiquei tão sem tempo de qualquer coisa que até as cervejinhas pós-expediente começaram a escassear…

Mas não me desliguei. Estive no cariri cearense, cobrindo o IV Encontro Mestres do Mundo e o III Seminário Nacional de Culturas Populares. O encontro reuniu cerca de 200 mestres da cultura popular, detentores de todo o tipo de conhecimento da cultura oral, das mãos, da música, do corpo… E foi sensacional. Mas como já foi há algum tempo, perdi o timing e fica meio feio contar coisas não-atuais aqui, né? Para não deixá-los na mão, na sequência vão os links da minha cobertura.

Mas escrevo tudo isso porque meu último post foi um pré-anúncio de que estava disposto a transformar essa famácia e nossas estatísticas de acesso até caíram, mas não chegaram a zero – o que significa que alguém ainda vem curiar por cá de vez em quando pra saber se temos novidades. Pois é. Vai ficar pra 2009, já deu pra perceber, né? Tudo bem, só mais 9 dias e esse ano foi pro beleléu. Em 30 dias, espero cumprir com a promessa e voltar. Marcado então? Dia 18/01 estamos de volta, com tudo diferente e novos colaboradores.

Ano que vem vai ser foda a partir de maio, quando meu Pedro nasce. Mas a nova equipe vai segurar a onda por aqui. 2008 foi muito legal por termos levantado esse espaço alternativo que se propôs a lançar um novo olhar sobre a cultura da capital, mais focado em cobertura que em divulgação. Esse é o espírito que pretendemos manter na nova farmácia. Nosso mega valeu a todos os que curtiram e curtem isso aqui.  Aquele abraço!

Mudanças em breve…

Mês de outubro é mês de mudança pra mim, já que é o mês do meu aniversário e de meio Brasil que apronta no carnaval (já percebeu?). E como, este ano, também é outubro o mês das primeiras férias da minha vida (5 anos de trampo sem parar, já pensou?), vou aproveitar esse tempo de ócio para reestruturar essa farmácia.

Eu e Fernando Hubner, competente programador, designer nas horas vagas, amigo e cunhado de vez em quando vamos gastar algumas horas refazendo isso aqui tudo. É provável que mudemos de endereço, mais uma vez… A intenção, por hora, é um portalzinho de cultura. Mas não vou ficar punhetando o cérebro do leitor. Não estou disposto a faze-lo gozar. rs

Em breve.

Coroa fogosa, enxuta e contemporânea

As cinco estações do amor, de João Almino

As cinco estações do amor, de João Almino

Impossível não se apaixonar por Ana, por vezes Diana, como foi batizada. Legítima representante de uma geração de jovens idealistas que chegaram a Brasília em plena ditadura militar para estudar na UnB de tudo que é canto do país, revolucionando hábitos e costumes de uma capital que se propunha a ter hábitos cafonas-ignorantes, repetindo os hábitos e costumes da high-society que mandava no poder na antiga capital.

De uma geração que encheu o rabo de maconha, que frequentava o Beirute e, desde então, o fazia ganhar os contornos alternativos que permanecem ainda hoje. De uma geração que se tornou punhado de professores universitários da UnB, ou donos de comércio. De uma geração que hoje aparece no Brasília na TV, ou não. Que tem casa no Lago Sul e que viu, com a vinda da democracia, a Brasília utópica de suas juventudes, virar essa cidade de fachadas “precocemente envelhecidas” da W3 Sul.

Ana, como é conhecida a Diana pela qual foi batizada – uma outra face de Ana, destemida, despudica, sedutora, femme-fatale, escondida em Ana covarde, pudica, sem graça – é dona de uma melancolia comum a quem viu a vida ser corroída em um de seus principais seus sentidos, o poder de sonhar. Aos 55 anos, deixou de fazer boa parte do que quis durante a vida. Agora, espera que algo inesperado aconteça e quebre esses dias comuns.

Então ela consegue o sexo fácil, dois beks, uma palestra da UnB para defender a teoria do instantaneísmo, formulada por ela – e não vou definir aqui porque, a cada instante em que vive cada uma das cinco estações do amor, ela a reformula -, uma arma para tentar esfolar os miolos sem que morra e o incêndio de sua casa e de todas as suas lembranças, a volta a També, Minas Gerais, onde nasceu. O marasmo da terra natal é maior que a melancolia brasiliense, então o amor recobra sentido na vida dela e ela volta. Apaixona-se. E desperta paixão entre aqueles que compartilham com ela uma parte de sua vida.

As aventuras e fantasias de Ana estão relatadas na minha boa surpresa literária e brasiliense do ano. As cinco estações do Amor, de João Almino. De ótima leitura e fácil de encontrar.

Mas chega de Ana. Tem hora que ela é uma chata, desgostosa do mundo.  Conheço alguns reais legítimos representantes desa geração de Ana, que chegou a Brasília revolucionando hábitos e costumes de uma capital que se propunha a ter hábitos cafonas-ignorantes. Ao contrário dela, que fez das impressões juvenis experiências que a tornaram muito melhor, estes, seres reais, se esqueceram ou quiseram esquecer um pouco daquele delírio juvenil, que, em doses moderadas, pode colaborar para uma visão de mundo mais justa. Viraram investidores da Bolsa de Valores, mercenários filhos da puta, donos de fazendas e de carrões, ordinários opressores ao assumirem cargos de chefia em órgãos públicos, orgulhosos de seus estúpidos status. Coisas que não importaram, um dia, quando estiveram presos pela ditadura. Incapazes de olhar para os subordinados com dureza, mas sem perder a ternura.

Ecologia, por uma eco-legal

Quatro décadas atrás, os conceitos de ecologia e de defesa do meio ambiente, certamente, ainda não eram bem formulados. Poucos, naquela época, falavam nisso, aliás. Época em que o desenvolvimento avançava sobre os recursos naturais disponíveis sem maiores repercussões – tudo bem que ainda hoje a indústria está se fodendo para o meio ambiente, mas naquela época, ela (e a sociedade, de um modo geral) podia fazer o que fizesse: jamais haveria um grande escândalo ambiental em destaque nas páginas dos jornais. Claro, guardadas as excessões (como tudo, né?).

site da artista

Uiaras (1984), é uma das xilos de Angela. Foto: site da artista

As empresas não faziam marketing vagabundo com mensagens de responsabilidade social, não havia sequer uma noção consolidada e difundida sobre consumo consciente. Mas foi de quatro décadas para agora que se soube que muitos animais eram sacrificados, na mata, para sustentar o luxo porco do homem urbano. Sacrificados a ponto de chegarem à beira da extinção, ou mesmo serem completamente exterminados. Tá, onde está a cultura, que é o que interessa neste site? Estaria eu virando um eco-chato? Não, essa introdução toda (que no jornalismo é chamada de nariz de cera e é abominada, mas eu adoro) serve de base para começar a falar de Ângela Leite.

Ela produz xilogravuras e desenhos os mais diversos, com temática bem definida e traço só dela: animais brasileiros são o foco do trabalho da artista. E o faz há pelo menos 40 anos. Quando ela começou, devia ser uma voz dissonante. Não havia essa onda “eco”, e portanto, não haviam eco-chatos. Explico: há gente bem intencionada, militante da causa ambiental, que desenvolve trabalhos louváveis, como Angela Leite, e gente pentelha, oportunista, que faz da causa ambiental um mote para aparecer – esses são os eco-chatos.

O que mais admiro num artista é sua capacidade de cuidar da forma de suas obras, sem esquecer do conteúdo. Há quem o faça criando um conceito, que delimite e delineie sua produção, e há quem milite em favor de uma causa e a transforme em arte. Ao ver uma xilogravura da artista, é possível que você apenas se atenha aos seus impressionismos estilísticos – essa relação é “pessoal e intransferível”, e à primeira vista, você determina se gosta ou não de determinada obra se é, para você, bela ou feia. Quando é apenas bela, mas não traz nenhum conceito ou conteúdo, torna-se estéril. Quando é feia, mas conceitual, carregada de significados políticos, pode até tornar-se linda. Recomendo ir além do impressionismo raso e se apaixonarás pela produção dela.

Aliás, as obras de Angela Leite, na minha opinião, não se inserem em nenhuma dessas duas situações de relação artista x público: elas são belíssimas (eu adoro xilogravura) e ricas da militância da artista eco-legal. Acaba de entrar na rede um site com boa parte de sua produção, tanto com a reprodução de suas xilogravuras, quanto de seus desenhos e textos, blog e mesmo produtos com reproduções de sua obra. Sensacional. Para ir nele, dedada aqui.