Ecologia, por uma eco-legal

Quatro décadas atrás, os conceitos de ecologia e de defesa do meio ambiente, certamente, ainda não eram bem formulados. Poucos, naquela época, falavam nisso, aliás. Época em que o desenvolvimento avançava sobre os recursos naturais disponíveis sem maiores repercussões – tudo bem que ainda hoje a indústria está se fodendo para o meio ambiente, mas naquela época, ela (e a sociedade, de um modo geral) podia fazer o que fizesse: jamais haveria um grande escândalo ambiental em destaque nas páginas dos jornais. Claro, guardadas as excessões (como tudo, né?).

site da artista

Uiaras (1984), é uma das xilos de Angela. Foto: site da artista

As empresas não faziam marketing vagabundo com mensagens de responsabilidade social, não havia sequer uma noção consolidada e difundida sobre consumo consciente. Mas foi de quatro décadas para agora que se soube que muitos animais eram sacrificados, na mata, para sustentar o luxo porco do homem urbano. Sacrificados a ponto de chegarem à beira da extinção, ou mesmo serem completamente exterminados. Tá, onde está a cultura, que é o que interessa neste site? Estaria eu virando um eco-chato? Não, essa introdução toda (que no jornalismo é chamada de nariz de cera e é abominada, mas eu adoro) serve de base para começar a falar de Ângela Leite.

Ela produz xilogravuras e desenhos os mais diversos, com temática bem definida e traço só dela: animais brasileiros são o foco do trabalho da artista. E o faz há pelo menos 40 anos. Quando ela começou, devia ser uma voz dissonante. Não havia essa onda “eco”, e portanto, não haviam eco-chatos. Explico: há gente bem intencionada, militante da causa ambiental, que desenvolve trabalhos louváveis, como Angela Leite, e gente pentelha, oportunista, que faz da causa ambiental um mote para aparecer – esses são os eco-chatos.

O que mais admiro num artista é sua capacidade de cuidar da forma de suas obras, sem esquecer do conteúdo. Há quem o faça criando um conceito, que delimite e delineie sua produção, e há quem milite em favor de uma causa e a transforme em arte. Ao ver uma xilogravura da artista, é possível que você apenas se atenha aos seus impressionismos estilísticos – essa relação é “pessoal e intransferível”, e à primeira vista, você determina se gosta ou não de determinada obra se é, para você, bela ou feia. Quando é apenas bela, mas não traz nenhum conceito ou conteúdo, torna-se estéril. Quando é feia, mas conceitual, carregada de significados políticos, pode até tornar-se linda. Recomendo ir além do impressionismo raso e se apaixonarás pela produção dela.

Aliás, as obras de Angela Leite, na minha opinião, não se inserem em nenhuma dessas duas situações de relação artista x público: elas são belíssimas (eu adoro xilogravura) e ricas da militância da artista eco-legal. Acaba de entrar na rede um site com boa parte de sua produção, tanto com a reprodução de suas xilogravuras, quanto de seus desenhos e textos, blog e mesmo produtos com reproduções de sua obra. Sensacional. Para ir nele, dedada aqui.

Estrelo, nudez e bonecos

Débora Amorim, para o site do Cena Contemporânea

Dança contemporânea conta história de Brasília com movimentos nus. Foto: Débora Amorim, para o site do Cena Contemporânea

Depois de dois protestos de nossos amados leitores, voltamos. Juro que não estávamos fazendo “toba com glicose”, foi um misto de várias coisas que impediu que não trabalhássemos em parte desse mês – a overdose desses drops nos levou a clínicas de recuperação e eu cheguei até a ouvir um pagodinho. Brincadeira! Mas, por hora, continuo sozinho: a essa hora, Ana Luiza Zenker (a outra hipocondríaca que faz este Drops) já deve estar no Haiti (onde ficará por toda essa semana, a trabalho). Ela prometeu que, se ver algo interessante e com contornos medicamentosos, escreverá para essa farmácia quando voltar. Camila continua se dedicando aos pedais.

Como para nós a voz do leitor é a voz de Deus, e o Rafa pediu, vou preencher uma lacuna deixada por nosso antepenúltimo texto: os comentários sobre Cidade em Plano, espetáculo da AntiStatusQuo Cia. de Dança  (DF), que se apresentou no Cena Contemporânea.

Teve também a quarta edição do Festival Brasília de Cultura Popular. Fui na abertura, que foi bem legal, como nas duas últimas edições, nas quais, estive presente. O grupo Seu Estrelo e o Fuá do Terreiro, que organiza o evento, deu ares de grandiosidade à atração, bem diferente de dois anos atrás. Cresceu o profissionalismo e a oportunidade de posicionar o evento como um grande destaque na cultura candanga. Valeu pessoal! Como não vou me alongar – prometo escrever mais sobre o Seu Estrelo depois – cá está um belo link em que você pode baixar o mito do Calango Voador. O site do Seu Estrelo é este aqui (dedada).

Bom, Cidade em Plano. Absolutamente nus, Karla Freire, Marcela Brasil, Rafael Villa e Robson Castro parecem entrar em catarse em cena. À entrada, o espectador é orientado a “seguir a luz azul”: o palco da sala Plínio Marcos, da Funarte, não será ocupado apenas pelos bailarinos, mas por todos. E o público deve ficar nos círculos abertos no chão pela luz azul. À frente, os dançarinos.

Clarice Niskier, em A Alma Imoral, enfrenta o público nuinha, como contamos em julho. E este enfrentamento provoca uma reflexão sobre o quão difícil é encarar a nudez alheia. Ainda mais quando são duas mulheres e dois homens, no caso de Cidade em Plano. Mas atravessada a dificuldade, é fácil perceber que os dançarinos contam, com os corpos, uma narrativa sobre Brasília. Com dança e postais da Catedral, do Congresso, de personagens e de pontos turísticos da cidade.

A narrativa termina com uma bailarina completamente vestida por postais brasilienses iguais, formando um vestido que parece de festa. Falam, assim, de repressão aos corpos, de uma política fajuta centralizada por essas paragens que deixa o cidadão cego e alheio às suas realidades tão claras quanto a nudez dos bailarinos. Algumas mensagens não ficam claras, infelizmente. Num momento do espetáculo, por exemplo, os artistas calçam um postal com a foto de um personagem da capital. Impossível reconhecer quem era. Imaginei que fosse Mestre Salustiano, mas não dava para entender. Essas pequenas falhas de comunicação podem ser perigosas: já que se trata de uma apresentação de dança contemporânea (portanto, sem fala), uma quebra assim pode representar descontinuidade na narrativa, e o público passa a não entender mais nada.

Outro ponto falho: demora demaaaaaaaaais. Como o público fica em pé, se cansa. Não dá, pessoal da AntoStatus Quo: cortem sequências, condensem, façam o que for, mas diminuam. Fui à platéia sentar-me duas vezes, porque era impossível seguir aquele ritmo de vocês em pé! E, sentado, você perde uma série de percepções sobre o espetáculo. Mas o balanço é positivo.

Estamos com abstinência!!

O consumo elevado destas drogas nos levou à overdose. Estamos em uma clínica de recuperação, mas voltamos muito logo. Ao consumidor inveterado destas drogas, nossos esclarecimentos: nossa pouca atividade nos últimos dias tem alguns motivos. 1 – O Morillo, um dos repórteres do blog, acaba de descobrir que será papai e está sem tempo de ver sequer um filminho. 2 – A Ana Luiza Zenker, outra repórter, está resolvendo alguns problemas particulares. 3 – A Camila Coelho comprou uma bicicleta e sumiu no mundo pedalando (e não sabemos se ela vai voltar). Portanto, como a vida vai precisar de um pouco de organização, as atualizações por esta semana podem demorar um pouco. Nossas vidas culturais estão um pouco aquém do que requer o nosso sofisticado consumidor de drops. Mas não nos abandone. Voltamos logo que tomarmos alguma droga para nos recuperarmos. E com algumas novidades.

Listras escondem segredos de pijamas

Livraria Cultura

O menino do pijama listrado. Imagem: Livraria Cultura

Provavelmente foi Augusto Pacheco Calil quem escreveu a orelha de “O menino do pijama listrado”. Ele foi o tradutor da obra do irlandês John Boyne, que já vendeu mais de 350 mil exemplares pelo mundo. Em geral, a orelha serve de aperitivo para a obra. É como se fosse a exposição da comida que será devorada em seguida: ao vê-la, automaticamente as papilas gustativas entram em ação. Neste caso, Calil tentou se isentar: “é muito difícil descrever a história de O menino… Normalmente, o texto de orelha traz alguma dica sobre o livro, mas nesse caso, isso poderia prejudicar sua leitura”. Foi mal, Calil. Você atingiu o objetivo da orelha: me deixou tão curioso que três dias foram suficientes para detonar as 186 páginas com bom espaço para o dedo e espaçamento entre-linhas de 1,5.

Não farei o mesmo com o leitor deste blog, contudo. Embora concorde que vai ser tarefa árdua tentar não passar nada que estrague nele a vontade de ler o livro. Sabe o que é o pior? Foi exatamente como conta a orelha que soube da obra: um amigo de trabalho, que gosta muito de ler, indicou-me sem dar um detalhezinho sequer. Estou enrolando? Vamos lá…

Imagine vivenciar uma história no holocausto sob um ângulo jamais abordado: o de Bruno, um garoto de nove anos. Sem clichê. Não se trata de nenhuma criança judia contando como foi sua morte. O USA Today publicou que a obra “pode se tornar uma introdução tão memorável ao tema como O diário de Anne Frank foi em sua época”. Mas não, é melhor que isso: ele pode servir como introdução à própria leitura de O Diário – quem não sabe, trata-se do diário (real) de uma menina judia, que morava na Holanda e, durante a 2ª Guerra Mundial, teve, com sua família, que se esconder para fugir do holocausto.

Ambos conservam uma angústia em comum: em O Menino, é como se o próprio Bruno o tivesse escrito. Em O diário, é a própria Anne quem escreve. E é angustiante ler o que escrevem um menino de 9 anos e uma menina de 12. Dá uma enorme vontade de encher a mão e meter um mega tapão na nuca de ambos, acompanhado de um “cala a bouca”… Crianças, pequenas ou grandes, são petulantes de vez em quando, né? Bom, continuo enrolando, né?

Pois é, mas nem vai dar pra continuar. Do contrário, você, nobre leitor, é quem terá vontade de meter-me um tapão na nuca. Vou estragar tudo, e como vale muito a pena ler, não farei nada disso. Se mesmo assim insistir em ler algo mais detalhado sobre o livro, posicione a seta do mouse aqui e em seguida clique, que você terá um artigo do (ótimo) site Digestivo Cultural. Mas eu não recomendo que faça isso consigo. Ao invés disso, vá direto à fonte. Disponha de R$20 a R$30 e deguste-o. Aqui, uma tabela de preços. Até mais.

Balança, Cena!

O Cena Contemporânea 2008 se foi. Deixou gostinho de quero mais, saudades e exaustão. Pela última semana, acompanhar o festival internacional de teatro de Brasília tornou-se uma experiência tão intensa e profusiva, as informações eram tantas, tantos eram os formatos, formas e conjuntos de surpresas, que escrever ao fim da noite poderia tornar-se insalubre a uma mente desgastada com tantos confrontos criativos.

Participei da Oficina de Crítica Teatral, todas as manhãs, com o jornalista e crítico Sérgio Maggio. No total, assisti sete espetáculos. Como só falei de Congresso Internacional do Medo (do grupo Espanca!, de BH) e de Édipo (cia. Benedita de Teatro, de GO), estou em dívida. Para saná-la, um balanção. Lá vai:

Davide Venturini, para o site do Cena.

Chão interativo de "O Jardim Japonês". Ao pisar nas tábuas da ponte, um som. Foto: Davide Venturini, para o site do Cena.

O Jardim Japonês

Dirigido às crianças, produzido por uma companhia italiana. Demais! Na verdade, não é uma peça de teatro. É um espetáculo que envolve contação de histórias, performance, instalação multimídia e criatividade. Ao chegar à sala Plínio Marcos, da Funarte, naquele sábado (31/08), eu e os demais espectadores fomos convidados a dispor de nossos sapatos e dirigirmo-nos de meias ou descalços ao palco. Lá, uma pequena arquibancada de três degraus em forma de arena. O som e a pouca luz tornavam o ambiente aconchegante. Achei que era só eu que sentia isso, mas as muitas crianças compartilharam da opinião: ficaram quietinhas. Ouviram a história de Shiro, uma lenda que fala sobre como surgiu o jardim japonês. Após uma bonita performance, elas (as crianças) eram convidadas a interagir com as imagens projetadas no chão, que recontavam a lenda. Parecia um video-game, só que as crianças não precisavam manipular joistiques para fazer com que seus personagens agissem: elas mesmas o faziam. Um espetáculo inteligente, pois sabe que criança não é imbecil e detesta vozinhas infantilóides em personagens debilóides. Genial.

divulgação, no site do Cena.

O som no apartamento de cima, a princípio, perturba a família. Com o tempo, torna-se momento de sapatear. Foto: divulgação, no site do Cena.

Amores Surdos

Hora de me redimir com o grupo Espanca!, pelos comentários de Congresso Internacional do Medo. Que tal chegar ao teatro e, de repente, um dos personagens da peça, contar o roteiro dela todinho, antes dele começar a se desenrolar? Ah, se perdeu a graça? Não. Aí é que ela começa. O personagem é sonâmbulo. A desconstrução da narrativa começo-meio-fim soa muito interessante na peça. Aliás, realizar essa desconstrução é sempre perigoso no teatro, pois é o que todos querem (sabe aquela coisa de querer reinventar a roda? É comum no teatro), mas poucos o conseguem com competência. Caso de Amores Surdos. Mostra o cotidiano de uma família como outra qualquer, com seus perrepes diários, que, com o passar do tempo, automatizam-se tanto a seus membros que são como um sapateado – é desta forma (sapateando) que eles retratam o dia-a-dia. Na interpretação de Beraldina (a Lílian Beraldo, consultora deste blog – quem o lê com frequência já sabe quem é), seriam os momentos “família propaganda de margarina” deles, em que tudo está ruindo, mas “vamos fingir que está tudo bem”, pensamento tão comum nos lares? Tô fazendo mea-culpa ao Espanca! aqui, vai… Mas pelo menos o que vi naquele domingo (1º), no CCBB foi uma desempenho extremamente superior ao do dia 28, em Congresso Internacional, na sala Martins Pena. Narrativa sólida, boas interpretações e mensagens marcantes. “Tem coisas que a gente tem que aprender a viver com elas”… Que seja um hipopótamo, capaz de ensinar um dos filhos a respirar direito, mas que também é capaz de destruir um lar por dentro, tornando aqueles amores de família cada vez mais surdos. Tão surdos a ponto de deixarem um dos membros dela, o Samuel, definitivamente de fora da casa. Ainda que ele apele, grite e sapateie para voltar àquela família.

Fernando Lobo, para site do evento.

Tuca Moraes é Lima Barreto, quando alcoólatra e interno de sanatório. Foto:Fernando Lobo, para site do evento.

Estação Terminal

Como utilizo algumas peneiras antes de escrever, uma delas é a da necessidade e a outra é a da maldade, pulo a tentativa de fazer um balanço de Estação Terminal. Promovido pela cia. Ensaio Aberto, do Rio, o assisti no teatro Sesc Garagem (913 Sul), dia 2. Trata-se de um quase-monólogo interpretado por Tuca Moraes, sobre a biografia de Lima Barreto. Não vai rolar mais do que isso. Foi mal, prefiro dar outra chance ao grupo, para que depois comente sem precisar fazer meas-culpas.

Resta Pouco a Dizer

Dalton Camargos, no site do festival

Um homem pode ser automatizado pelo relógio. Pode deixar a vida o levar, também. Ato sem Palavras II, de Becket. Foto: Dalton Camargos, no site do festival

Se tivesse terminado a semana com esse excepcional espetáculo dos irmãos Guimarães (Fernando e Adriano), seria um fecho genial. Da companhia Gabinete 3, do DF, e com a sala Martins Penna quase lotada na quarta-feira (3), as três pequenas peças de Samuel Beckett (traduzidas por ninguém menos que a ‘ame-a-ou-odeie-a” Bárbara Heliodora, crtítica de teatro do O Globo), “Catástrofe” (de 1982), “Ato sem palavras II” (de 56) e “Jogo” (de 62/63), ganharam vida em atores talentosos. Resta pouco a dizer quando não há mais “nenhum som, nenhum som, só a velha respiração”, essa que ocorre involuntariamente para que o ser humano tenha vida. O início, composto por uma esquete em que dois atores só podem falar quando acabam seus fôlegos, cada um dentro de um aquário, e os intervalos entre-peças, em que os atores continuam a trabalhar a temática da involuntária respiração, afogando-se em baldes d’água, levam a tantas conclusões e possibilidades interpretativas que resta pouco a dizer, além de que é genial. Tô brincando, me comprometo a fazer um texto só pra peça. Se me prolongar, você não vai aguentar até o fim.

Fico devendo, também, algo sobre o espetáculo “Cidade em Plano”, também ótimo. Melhor fazer depois, porque já deu pra perceber que rolou um excesso de informações nesta semana, né?